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segunda-feira, janeiro 16, 2006

 

O Lanche

Às vezes, com tantas coisas a fazer, que nos ocupam, esquecemo-nos daquelas outras coisas, pequenas ou menos pequenas que, realmente, nos dão prazer. Também eu não sou excepção e, por vezes, ou melhor, muitas vezes, esqueço-me do prazer dos detalhes. Passo a explicar. O que é que pode salvar um Domingo à tarde de trabalho, numa loja sem movimento, num dia de chuva, em frente ao computador? Pois é. Eu tenho a resposta. O lanche!!!
Claro que eu não estou a falar de um desses lanches ajantarados - aliás, a expressão lanche ajantarado, que eu adoro, não é mais que uma espécie de reinvensão tuga do famoso brunch (breakfast + lunch) dos nossos amigos britânicos, só que num horário mais mediterrânico. Tarde, início da noite. O que eu estou a falar é de um lanche lanche. Uma actividade feita a sós, ao contrário do lanche ajantarado que é feito em comunidade.
Duas sandes de presunto com manteiga, uma garrafa de coca-cola de 0,5 lt e um pacote de batatas fritas. Em frente ao computador, com os pés encostados a um aquecedor, chuva para criar o ambiente, headphones nos ouvidos e um filme despretensioso. Fui-me ajeitando.
Já tinha tudo mais ou menos calculado - vou fechar a porta da loja para conseguir alguma privacidade, afinal de contas trata-se do meu lanche, fecho a porta dos arrumos por causa das correntes de ar incómodas, chego a cadeira ligeiramente para trás para não ficar muito próxima do monitor mas suficientemente próxima da secretária de modo a conseguir, com o braço alongado e sem grandes esforços musculares, chegar à coca-cola, rodo o aquecedor até uma posição em que o ar dê directamente nos pés mas sem correr o risco de aquecer em demasia, coloco os headphones nos ouvidos, não esquecendo a dupla função de, para além de emitirem som estéreo, aquecem as orelhas, coloco o saco de batatas fritas numa cadeira de apoio ao meu lado, também à distância de um pequeno tique no braço, com algumas batatas já quase a saírem do pacote por forma a que a tarefa fique simplificada. Começa a minha jornada. O meu pequeno prazer. O meu lanche.
É aí que os problemas começam. O aquecedor tem de ser corrigido. Está demasiado próximo. Depois vem o problema com as batatas fritas. Já terminaram aquelas que estavam mais à mão e, agora, vou ter de voltar a despejar algumas para a saída do pacote para facilitar o processo. O monitor tem de ser ligeiramente desviado porque, se não, posso correr o risco de ficar com um torcicolo grave. Desencosto-me para rodar o monitor meio centímetro e, quando volto a encostar-me, já não encontro aquela posição anterior, quentinha. Quase que aposto que era assim que eu estava encostado mas… se calhar era assim. Nada. Já não encontro a posição antiga e agora vou demorar uma eternidade até ficar confortável novamente.
Apercebi-me então que, para retirarmos o máximo prazer possível de um lanche daquele género, tinha que sentir o barulho das batatas fritas na boca. Os headphones não permitem ouvir as batatas fritas. Ouve-se um som muito opaco, interno, estremece o cérebro mas não se ouve o som. Tive de retirar os headphones para apreciar o lanche. Mas aí já não tinha o prazer de estar a ouvir/ver o filme que estava a ver. Fui-me levantando pela loja, andando em círculos, apercebendo-me que já não estava a lanchar. Estava só a comer. Que chatice!!!
De repente bateram à porta. Era a minha mulher e a minha filha. Trouxeram bolo das festas, tremoços e uma pinhoca. Dei um beijo a cada uma delas, sentei a minha filha ao meu colo e mostrei-lhe o site do Noddy. Estávamos a comer bolo das festas. Roubei um tremoço ou dois e experimentei a pinhoca. Não me lembro da posição do monitor, da cadeira ou do aquecedor. Que belo lanche!!!

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