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quinta-feira, outubro 20, 2005

 

Botas

Um colega meu de universidade fez todo o curso com as mesmas botas. Eram castanhas. Um castanho tipo caramelo, nem claro nem escuro. Sem fecho nem fivelas. Simples. Na frente, nem muito bicudas nem muito redondas.
Quando chegámos ao terceiro inverno estavam gastas e, a maior parte das vezes, sujas.
Apesar de serem só umas botas, acho que me lembro mais vezes desse meu colega por causa delas do que delas por causa dele. Ou seja. Acho que, quase sempre, somos o que vestimos.
A propósito disto vem a nossa última indumentária. Aquela que levamos para conhecer os anjos. Porque será que temos de ir todos, nós, homens, de fato?! Não seria mais razoável irmos vestidos com aquilo que nos identificou sempre enquanto na terra?! Quem é que decidiu que havíamos todos de ir vestidos de igual?!
Tirando os bancários, vendedores, agentes de seguros ou mais alguns que me possam estar a escapar, ninguém anda sempre de fato escuro, sapatinho brilhante e gravata a preceito. Corremos o risco de, qualquer dia, num funeral de um mecânico, que toda a gente conheceu sempre de fato-macaco ou, no máximo, de calças de ganga, alguém chegue ao caixão, olhe e diga -"mas este não é o Tomé".
-"É pois! Só que está de fato. E pintámo-lo. E fizemos-lhe o risco ao meio."
Se calhar - esta é só uma teoria - a ideia é confundir quem está lá em cima. Se formos todos iguais, ninguém sabe se éramos assim ou assado. Fizémos isto ou aquilo. Ou seja, temos mais possibilidades porque ninguém nos reconhece. Pior é para os padres porque, segundo sei, vão vestidos com o hábito. Assim que chegam lá em cima, ou lá em baixo, alguém lhes aponta logo o dedo e diz - "Pronto. Tu és padre".
Já não basta os coitados serem padres na terra como ainda por cima vão rotulados lá para cima.
A mim conhecem-me sobretudo de calças de ganga e camisa (por dentro das calças). Por isso já sabem. Quando, daqui a muito, muito tempo, chegar a minha vez, quero ir assim. Mas não se esqueçam. Mandem-me com um daqueles pares de botas que aguentam cinco ou seis invernos. Não peço muito.


Comments:
muito bom...
dei por mim a pensar na pele que vou vestir quando for embora...
verde...
definitivamente verde...
eu nunca uso verde...
 
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